
Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.
Fernando Pessoa
Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!
Sophia de Mello Breyner Andresen

Guardei-me para ti como um segredo
Que eu mesma não desvendei:
Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei...
Lya Luft

É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas.
É tão silencioso.
Como traduzir o silêncio do encontro
real entre nós dois?
Dificílimo contar.
Olhei pra você fixamente por instantes.
Tais momentos são meu segredo.
Houve o que se chama de comunhão perfeita.
Eu chamo isto de estado agudo de felicidade.
Clarice Lispector
...quem disse que não se pode sonhar??
eu sonho e sonho e, ah!! eu sonhooo
...e adoro te sonhar também...
e, por favor não ouse me acordar!!...
ð¡n
Ah, e eu realmente te espero...
Pelo resto da vida!!
Eu te digo
Que te quero
Que te espero
Que sempre te ouço
Nos átrios celestes
E nos calabouços
Eu te digo
Que te quero
Que te espero
Que és meu encanto
Em todos os cantos
Por onde ando
Eu te digo
Que te quero
Que te espero
Que te vejo sempre
Sempre a cada segundo
Aqui e no fim do mundo
Eu te digo
Que te quero
Que te espero
Mesmo que tenha
Nessa minha doida
Vontade de te querer
Que te esperar para sempre
Pelo resto da vida
Ah, e eu realmente te espero...
Pelo resto da vida!
Adriano Hungaro
Não me pergunte quem sou
como sou de onde venho
e pra onde eu vou
apenas me ame
Me ame sem demora
pois não saberei esperar
Me ame com carinho mas
não exija muito de mim
apenas quero que
me ame...
desconheço autor

Meu amado me diz
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas.
Tive um certo rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua faca
me transpassa.
Marina Colassanti
Vive comigo um amor sem moda
Ou se for de moda, que seja antiga
Me manda uma ?cartinha?
Com letras ?redondinhas?
Cheias de ?eu te amo?
Me escreve uma poesia
Cheia de ?riminha?
Me proponha uma jura
Daquelas que não se fazem:
?Quer ser pra sempre,
Sempre minha??
Cáh Morandi

Amor... Hoje estou triste... Nesses dias
a vida de repente se reduza um punhado de inúteis fantasias...
... Sou uma procissão só de homens nus...
Olho as mãos, minhas pobres mãos vazias
sem esperas, sem dádivas, sem luz,
que hão semear vagas melancolias
que ninguém vai colher, mas que compus...
Amor, estou cansado, e amargo, e só...
Estou triste mais triste e pobre do que Jó,
- por que tentar um gesto? E para quê?
Dê-me, por Deus, um trago de esperança...
Fale-me, como se fala a uma criança
do amor, do mar, das aves... de você!
J. G. de Araujo Jorge
O poema tarda?
Não!
Se ainda não fiz um poema a ti,
é porque não queria fazê-lo a metro, por medida.
Eu quero senti-lo e que o sintas,
e que Descartes não filosofe aqui.
É nossa a vida,
querida abelha, perdida!
Manuel Oliveira

Preciso do teu silêncio
cúmplice
sobre minhas falhas.
Não fale. Um sopro,
a menor vogal
pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo,
pode construir. É um modo
denso/tenso
— de coexistir.
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.
Affonso Romano de Sant'Anna
"A pior forma de sentir falta de alguém é estar sentado a seu lado e saber que nunca o poderá ter."
Gabriel Márquez

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.
Maria Teresa Horta

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.
Alexandre O'Neill
Nunca o verão se demorara
assim nos lábios
e na água
- como podíamos morrer,
tão próximos
e nus e inocentes?

Húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.
(Vontade de ser barco ou de cantar.)
Eugénio de Andrade
Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen

...
Tira-me a luz dos olhos - continuarei a ver-te.
Tapa-me os ouvidos - continuarei a ouvir-te.
E, mesmo sem pés, posso caminhar para ti.
E, mesmo sem boca, posso chamar por ti.
Arranca-me os braços e tocar-te-ei com o meu coração
como se fora com as mãos...
Despedaça-me o coração - e o meu cérebro baterá.
E, mesmo que faças do meu cérebro uma fogueira,
continuarei a trazer-te no meu sangue.
Rainer Maria Rilke
Desperta-me de noite
o teu desejo
na vaga dos teus dedos
com que vergas
o sono em que me deito...
Maria Teresa Horta
“Chegaste.
Eu não te esperava.
Contigo trouxeste a ternura, o desejo e, mais tarde, o medo.
Chegaste e eu não conhecia essa ternura, esse desejo.
…
E passou tempo.
Eu e tu sentimos esse tempo a passar,
mas quando nos encontramos de novo,
soubemos que não nos tínhamos separado...”
.Antídoto.
José Luiz Peixoto

Na imensa tela,
Pintei você,
Em cores d'água,
Em plena areia,
À luz do sol.
Escrevi você,
Com a pena
Dos meus dedos.
Nas letras, nas palavras,
Nas frases,
Retirei notas,
A bailar movimentos.
Pintei você.
Arlinda Lamejo

Se soubesses
Que ando suspirando a tua volta,
Catando os pedaços do ar que expiras...
Se soubesses
o tanto e tanto que inspiras,
Virarias versos,
Te deitarias sobre o papel em branco
Que me espera...
Euridice Hespanhol

Não deixe portas entreabertas
Escancare-as
Ou bata-as de vez.
Pelos vãos, brechas e fendas
Passam apenas semiventos,
Meias verdades
E muita insensatez.
Flora Figueiredo
In: Calçada de Verão,
Editora Nova Fronteira
Rio de Janeiro, 1989

Sede assim - qualquer coisa
serena, isenta, fiel.
Flor que se cumpre,
sem pergunta.
Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.
Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.
Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.
Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.
À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.
Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.Sugestão
Sede assim - qualquer coisa
serena, isenta, fiel.
Flor que se cumpre,
sem pergunta.
Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.
Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.
Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.
Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.
À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.
Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.
Não como o resto dos homens.
Cecília Meireles
"Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo que eras nuvem, depus a minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar, quando caí"
Cecilia Meireles
Quando eu não pensava em Ti,
Os meus pés corriam ligeiros pela relva,
E os meus olhos erravam,
Distraídos e felizes,
Pela paisagem toda...
Quando eu não pensava em Ti,
As minhas noites eram
Como o sono do céu, cheio de luar...
Quando eu não pensava em Ti,
A minha alma era simples e quieta...
A minha alma era uma ave mansa,
De olhos fechados,
Na alta imobilidade de um ramo,
Quando eu não pensava em Ti...
E agora,
Ó Eleito,
O meu passo demora,
Esperando pelos meus olhos,
Que procuram a tua sombra...
As minhas noites são longas, morosas,
Tão tristes,
Porque o meu pensamento
Põe-se a buscar-te,
E eu, sem ele, fico mais só...
Perderam-se os meus olhos
Entre as estrelas,
Entre as estrelas se perderam
As minhas mãos,
Nesta ansiedade de te alcançarem...
Eleito, ó Eleito
Por que foi que eu fiquei assim?
Por que,
Desde o chão do meu corpo
Até o céu da minha alma,
Sou uma fumaça de perfume
Subindo em teu louvor?
Quando eu não pensava em Ti,
Os meus olhos erravam,
Distraídos e felizes,
Pela paisagem toda...

"Chegar,
Como brisa que atravessa a janela.
Soprando de leve,
As brumas do passado.
Chegar,
Como o barco.
Trazendo alegrias,
Após enfrentar as procelas sombrias.
Chegar,
Como a saudade.
Que bate,
De manso, no coração.
Chegar,
Como Chuva, fininha,
Mansinha, criadeira,
Necessária e tão querida.
Ficar,
Nas lembranças do passado,
Nas estampas do presente,
A retratar nosso ontem no hoje.
Ficar,
Para sempre.
Na imagem nunca esquecida,
Dos que nos são tão queridos.
A vida,
É chegar e ficar,
Para sempre.
Vida nunca será partida."
Cecília Meireles
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Que importa se a distância estende entre nós léguas e léguas![]()

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